h1

Distante

Julho 14, 2008

Acordou e coçou a cabeça. O espaço ao lado do seu na cama já estava desocupado. Em passos lentos, levantou e se dirigiu ao banheiro. Examinou minuciosamente os poros abertos, as rugas e as olheiras de um rosto exausto. Encheu as mãos de água e mergulhou a cara. Mais um dia. Escova de dente, creme dental, espuma para barbear, Gillette. Molhou os cabelos e passou o pente. No máximo, apresentável. No máximo. Tirou os chinelos, o pijama amarrotado e se arrastou até o armário. Hoje usaria sapatos e cinto marrons, calça e terno azul-marinho e uma camisa branca. Nada de gravata.

Respirou fundo e desceu as escadas. Uma mulher impecavelmente vestida o esperava para tomar o café da manhã. Suco de laranja e acerola, bolo de cenoura, croissants, pão francês, geléia de morango, café, leite. Três crianças barulhentas aparecem na sala. Um beijo nele, um beijo na mulher. No jornal, a taxa Selic para o mês era de 0,94%, o dólar comercial havia avançado 0,49% no dia anterior e o São Paulo tinha vencido.

Até que enfim, pensou. Levantou, pegou a chave do Mercedes e seguiu pelas ruas vazias. Sete quadras até alcançar a avenida principal e o inevitável trânsito da manhã. No som, Miles Davis interpretava a ópera de George Gershwin. Meia hora depois, estacionava na garagem de um enorme prédio azulado. Décimo sexto andar. Sala 403. Bom dia, doutor.

Deu uma volta em seu próprio eixo, sentado na sua cadeira giratória de couro. O escritório era todo pintado em cor de gelo. A janela enorme tinha vista para a área mais arborizada da cidade cinza. Mesa cor de tabaco com acabamento em fita de bordo. Telefone, dois celulares, televisão de plasma para videoconferências (e futebol nos intervalos), fax, scanner, computador, monitor LDC 20 polegadas. Não seria de todo ruim, não fosse a bromélia artificial no canto da sala. Era de um mau gosto extremo, mas já estava lá quando chegou e teve preguiça de tirar. Quem sabe na outra semana? Deu mais uma volta e parou. Foi a última vez que sentou naquela cadeira.

Também nunca mais voltou para a casa com a mulher impecável e as crianças barulhentas. A taxa Selic não influenciava o seu humor. O dólar não o fazia amaldiçoar o Banco Central. E não fosse um ladrão muito esperto, o Mercedes ainda estaria na garagem com uma espessa camada de poeira.

A última pessoa que o viu foi a secretária. Em seu depoimento para o delegado, disse que ele saiu correndo da sala com os braços estendidos e o terno amarrado com as mangas em volta do pescoço em forma de capa. Nem olhou para trás quando chamei por ele – disse desolada por não ter impedido que o patrão sumisse.

Isso foi há um mês. Ontem, eu estava caminhando no parque central quando o vi. Ainda estava com o terno amarrado em volta do pescoço. A camisa branca agora tinha cor de terra e estava rasgada na altura do braço. Ele não usava sapatos e dava piruetas fenomenais que entretinham os adolescentes e assustavam crianças e mocinhas. Com olhos cheios d’água, gritei pelo meu amigo. Ele parou de dançar e olhou para mim.

- Alberto, meu querido, o que houve com você?

- Nada. –disse sorrindo – Apenas me lembrei de quem eu sou.

Fez uma reverência e sumiu parque afora com seus sorrisos, saltos e piruetas.

4 comentários

  1. Bastante interessante seu conto, gostei do jeito que escreve (:
    Preciso colocar minhas idéias em ordem e começar a escrever os vários enredos que tanto crio em minha cabeça.
    moo ;*


  2. há, ótima aquela hostória do ‘não leve seu marido ao Wal-Mart’ ;D


  3. Hey! Gostei do blog. A primeira coisa pseudo-inútil[inutil completamente não é pois me fez rir, e você escreve bem {de acordo com a gramática}] que eu já achei por essas bandas. :3
    ;*


  4. Boa, gostei. Principalmente a idéia do terno como capa. Escritórios drenam a vida das pessoas…



Deixe um comentário