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1990 – Funeral de Henry Thomas

Setembro 9, 2008

Por alguns momentos, ninguém se lembrou do morto. Todas as atenções estavam voltadas para a menina de 4 anos que acabava de ser esbofeteada pelo pai.

Vovô dormia e eu estava sentada na poltrona perto da mesa de cabeceira. Não queria estar ali. Era aniversário do Ross e todos os meus amigos iam. Eu não. Eu tinha que ficar sentada ali, balançando as pernas, esperando o tempo passar.

Foi aí que vovô abriu os olhos e pediu que eu chegasse mais perto.

- Por que você está tão aborrecida?
- Eu queria ir para a festa do Ross.
- O que vai ter lá?
- A mãe dele chamou um mágico.
- Um mágico? Você gosta de mágica?
- Gosto.
- Então preste bem atenção.

Ele então gritou XAZAM bem alto e apareceu do outro lado do quarto. “Aposto que nunca viu um mágico que está em vários lugares ao mesmo tempo”. Era incrível! Comecei a rir e bater palmas, enquanto vovô desaparecia e aparecia por todo o quarto.

Papai não gostou muito das mágicas, me pegou pelo braço e mandou que eu ficasse quieta. Uns homens vieram e levaram o meu avô. Eram os assistentes dele que iam prepará-lo para o grande truque do dia seguinte.

Mal consegui dormir ansiosa para que o tempo passasse rápido. Vovô disse que ia ser a mágica mais sensacional já feita na história na humanidade. Acho que a mamãe também estava nervosa. Toda hora ela falava que queria ver o vovô. Dei um abraço nela e falei para ela ficar calma, que o vovô não gosta de criança chorona.

Logo cedo, papai me acordou e falou para eu colocar o meu vestido mais bonito. Eu sentia que ia explodir de tanta alegria. Entramos no carro e fomos para a festa. Quando chegamos, levaram a gente para perto de um buraco enorme. Vovô ainda não tinha chegado. Muitas pessoas chegaram depois da gente e também sentaram perto do buraco. O tempo passava, passava, passava… e nem sinal do mágico.

Foi aí que apareceu um enorme carro preto e os assistentes do meu avô saíram carregando uma caixona de madeira. Vovô estava lá dentro, vestido de terno. Onde será que ele tinha escondido a cartola? Mamãe levantou, colocou uma rosa na caixa e deu um beijo na testa dele. Mandou que eu fizesse o mesmo.

Quando cheguei perto, vovô falou para eu fazer bastante silêncio porque era uma mágica difícil e ele precisava se concentrar. Dei a flor para ele e desejei boa sorte. As outras pessoas fizeram o mesmo. Então, os assistentes fecharam a caixa, colocaram dentro do buraco e jogaram terra.

Perguntei para a minha mãe como ele ia conseguir sair, mas ela só me abraçou e pediu que eu ficasse quieta. Então, vovô pulou de uma árvore e apareceu em cima do lugar onde tinham acabado de enterrar ele.

VIVAAAAAAAA! – gritei e bati palmas. Depois, tudo apagou.

Só lembro do meu rosto ardendo e do papai me arrastando de volta para casa.

4 comentários

  1. Muito “Os Rugrats”.


  2. Essa história me lembrou meu avô, cara…


  3. elisa,

    eu amo a maneira como vc escreve.
    nem sei se um dia eu já disse isso pra vc…

    esse vai pro top5.
    =)


  4. [...] Elisa que trás relatos do dia-a-dia e coisas que “não são mentiras, apenas inventadas”. Este post foi fundamentalpara eu querer escrever. Pior pra vocês, porque meu texto de ficção é uma [...]



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