Arquivo da categoria ‘Contos’

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Impecável (parte II)

Julho 31, 2008

Casou-se. Estava casada e pronto. Não havia solução. Em um barracão é que a sua princesinha não ia morar – bradava o pai – e tratou de arrumar um emprego para o Roberto na firma.

Que é que um pedreiro poderia fazer em uma empresa de eletrodomésticos sofisticados para mulheres-do-lar-com-dinheiro-de-sobra? A mãe sugeriu garoto propaganda. “Ele é até bem apessoado”. Mas o pai – esquecido de que, na verdade, Roberto era pedreiro – gritava que filha dele não casava com um modelinho qualquer.

Vestiu terno no genro, deu sapatos, meias, gravatas, cintos e mala de executivo. Seria Diretor de Estoque. Antes, o cargo era do Afonso mas ele foi rebaixado para assistente do diretor. Continuaria trabalhando como antes, só que com um salário menor e quem assinaria a papelada seria o Roberto.

- Sabe assinar o nome, Beto?

- Sei ler e escrever, doutor.

- Ler não precisa. Só assinar o nome.

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Impecável (parte I)

Julho 24, 2008

Na penteadeira, os cremes e perfumes foram organizados por ordem de tamanho, da esquerda para a direita. Não havia nenhum livro na mesa de cabeceira, só um pequeno espelho. Aliás, havia espelhos por todo o quarto. Espelho na caixinha de música, nas portas do armário, na casinha de bonecas… Era o único meio que ela encontrava para inspecionar cada centímetro de seu corpo e se manter impecável.

Desde pequena, nunca teve muito contato com outras pessoas. Por ser filha única, criou um mundo próprio de bonecas, pôneis e castelos encantados. Recusava a presença de outras crianças sujas comedoras de lama. Saía do seu retiro somente na hora das refeições e quando precisava ir ao toilet. Anos depois, exigiria que construíssem um banheiro só para ela quando encontrou um calhamaço de cabelo no ralo do chuveiro – uma tia gorda e solteirona tinha vindo passar o feriado e estava com problemas de queda capilar.

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Distante

Julho 14, 2008

Acordou e coçou a cabeça. O espaço ao lado do seu na cama já estava desocupado. Em passos lentos, levantou e se dirigiu ao banheiro. Examinou minuciosamente os poros abertos, as rugas e as olheiras de um rosto exausto. Encheu as mãos de água e mergulhou a cara. Mais um dia. Escova de dente, creme dental, espuma para barbear, Gillette. Molhou os cabelos e passou o pente. No máximo, apresentável. No máximo. Tirou os chinelos, o pijama amarrotado e se arrastou até o armário. Hoje usaria sapatos e cinto marrons, calça e terno azul-marinho e uma camisa branca. Nada de gravata.

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Tranqüilo

Junho 18, 2008

Era uma vez um garoto tranqüilo. Não tranqüilo quieto, ou tímido, ou discreto, ou bom garoto exemplar. Nada disso. Era tranqüilo e ponto.

Tão tranqüilo que um chihuahua podia estar agarrado na sua perna que ele não se alterava.

“Deixa ele, coitado. Tá doendo não.”

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O príncipe

Junho 18, 2008

Ursula era uma dona solitária. Sem parentes ou amigos ou gatos.

Um dia, Ursula estava voltando para casa quando viu um pé no meio da rua. Pé sem corpo mesmo. Só o pé. Um membro perdido tão comum quanto bituca de cigarro.

A poucos metros dali havia uma caixa de sapatos. Cuidadosamente, ela pegou o pé e guardou na caixa.

Já em casa, foi até o quintal e cavou um buraco na terra.

Plantou o pé. Regou o pé.
Alguns dias depois já se via um princípio de tornozelo.